E, se, não sobressaírem as cores? Se eu não mais reconhecer o cheiro do vermelho?
...
Por que eu? Por que isso acontece comigo? O que vejo é reverberação da minha ansiedade, e, nada apreendo como resposta. Sinto apenas o silêncio de quem me ouve, quem sabe, escutando no desespero do meu olhar, o desejo de enxergar para além de um canal estreito.
6.7.09
Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
João Guimarães Rosa
5.7.09
Mas, se meu olhar não percebe
e não alcança o mistério...
busco, na diversidade de sentidos,
o sentido do viver
1.7.09
Experimento a estranheza desse mundo desconhecido. Tateio pelo corredor à procura da porta que me dê acesso à cozinha. Nela, encontro os cheiros de mãe misturados ao tempero do feijão preto recém cozido. De perto, enxergo a ausência das cores. Já não há mais o verde, que se confundia no seu olhar azul, nem o tom cinza impregnado na percepção dos dias encraterados na minha solidão. Escuto no vermelho sangue, o pulsar de minhas inquietações. Que mundo é esse que se apresenta como possibilidade em pleno momento de descobertas?
...
Redescobrir o cheiro, a textura, os sons... o gosto de Vida.
Esse é o milagre?
22.6.09
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso.
Clarice Lispector
11.6.09
OVERDOCE
Não. Não dá para continuar ingerindo azeite quente e absorvendo tantas agruras cotidianas. Então, o jeito é se rebelar e descumprir a ordem vigente. Faço, eu mesma, o doce azedo e sigo numa tentativa de acalmar a ansiedade e a fadiga. Na receita atrapalhada, sumo de limão à vontade – o verde limão que pode mandar embora as toxinas que ameaçam o coração e suavizar o que azeda o fígado e a vesícula – creme de leite e leite condensado. Muito leite condensado para alegrar o humor. Junto todos os ingredientes, mais a grande vontade que a insaciável fome me traz, misturo tudo à melancolia do fim do dia, acrescentando raspinhas dele, é, do limão verdinho para enfeitar e, gotas de café para apaziguar a culpa. Desculpas esfarrapadas aceitas, saboreio o doce, uma overdose doce, em confusas emoções embaralhadas ao vazio do feriadão, véspera do dia dos namorados com gente fazendo a trezena ao Santo Popular para manter ou recuperar a alegria e encontrar ombros disponíveis. Tempo esquisito esse. Nas ruas, a sujeira nossa de cada dia, acondicionada em sacos plásticos – azul, branco, preto, amarelo – plásticos de todas as cores obstruindo as vias. Há braços escondidos, há braços cruzados impedindo o encontro. Aqui dentro, sobram cascas, caixas, entulhos e a promessa de retornar ao caminho saudável. Dormir menos e viver mais.
27.5.09
NOVOS SONHOS
Guardados, num tempo distante, estão os sonhos glamorosos de uma vida mutante. No palco possível, misturada ao coro, sua voz sobressaía – na aclamação de aleluias – nas manhãs dominicais em espaço sagrado. Chegaria o tempo de grandes apresentações, em diversas cidades, com suas músicas tocando em todas as rádios, programas de TV...
Lembranças revividas no quintal, à sombra da generosa mangueira, testemunha e cúmplice dos planos imaginados por aquele duo – soprano e tenor, menina comportada e o jovem "Black Power", com seus óculos escuros e seu violão. É, o tempo segue. O caminhar dos amigos que se fez em caminhos distintos, agora se encontra, e, de novo...
Não, não. Não há música na conversa. Por causa da disfonia, ele parou de cantar. Pensou que logo voltaria, pois já havia ficado rouco outras vezes, mas...esperou, esperou, e, levou um choque.
_estou com aquele mau – disse-me, depois de me contar que procurou ajuda médica para retirar a espinha de peixe que ficara na garganta.
Após minuciosos exames, o que parecia apenas um desconforto é, na verdade, o mau que ele não admite pronunciar seu nome. A quimio, como ele diz, já levou boa parte de sua cabeleira crespa. E os sonhos? ah! esses continuam. Sonhamos novos sonhos, com um jeito diferente de sonhar, mas, sempre, sonhos.