21.5.08

ADORMECI E ZEREI

Então
adormeci e zerei o cronômetro.
Acordando
começo, agora, junto com o novo passo.

20.5.08

CAMINHANDO...
Foto: Andra Valladares

Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só que aquilo que capto em mim tem, quando está agora sendo transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que um instante, quero ser seu fluxo.
Clarice Lispector

18.5.08

O OLHAR QUE TE REVELA


Tu me perguntaste quem sou e eu respondi: Sou um olhar, reflexo, entre mim e você, na sua complexidade de escuridão. Tu me perguntaste quem sou e eu respondi: Sou um olhar, curtido pelo tempo, que se faz olhar num filete de luz –a luz da lanterna– mostrando o caminho e possibilitando O olhar, que te revela e te escuta, no seu desejo de se perceber olhar na essência. Tu me perguntaste quem sou e eu respondi: Dentre os vários pontos de luz... Eu sou um olhar.

PS: texto comentário que fiz no essapalavra,
frase de Dauri Batisti

15.5.08

OS CAMINHOS QUE LEVAM À MONTANHA
Foto: Andra Valladares

uma proposta de Andrea em Leio o mundo assim...

Conta a história que foi num domingo, dia em que a fé católica festeja pentecostes... 23 de maio do longínquo ano de 1535, e eis que aos pés da montanha verdejante, nascia, a primeira filha do Espírito Santo, que hoje se prepara para os festejos de seus 473 anos. Cidade com seus encantos e desencantos, abriga-me desde os anos 70, quando aqui cheguei pelas mãos de meus pais, vinda do interior das Minas Gerais, lugar de terra rocha (ou vermelha) sei lá, e de muita pobreza para a grande maioria de seus habitantes. Das lembranças que tenho, sei que meus pais juntaram os filhos e os filhos e de lá saíram, rumo à cidade promessa de dias melhores.


Perplexos e extasiados com o lugar de ventos e expressões diferentes, em que se “pocava” a pipoca na panela, avistávamos a imensidão de água, ao longe de nossa casa, visão que nos seduzia , apontando como seta que ali havia beleza no encontro com sua majestade, o Mar. Suas princesas, aos poucos, foram se apresentando à vontade de se fazerem conhecidas pelos mineiros recém-chegados. Praia da Costa, menina dos olhos dos moradores, Itapuã, que até hoje agrega lazer e labor no ofício dos pescadores, Itaparica, a princesa mais badalada da orla, Barrra do Jucu, que recebe as garças no final da tarde, a Praia da Barrinha, que faz a alegria para o esporte que reúne os surfistas, e mais praias para o deleite na cidade verão que dura o ano inteiro.

Para não fugir à tradição religiosa, a devoção marca presença. Puxada do Mastro, Congadas, gente vinda de todos os cantos do Brasil para a Festa da Penha, festa que inclui na sua programação, o encontro de milhares de homens que, desde 1958, fazem, sob o manto da fé, a tradicional Romaria dos Homens: uma longa caminhada que começa na capital Vitória e percorre os caminhos que levam à montanha. Montanha sagrada, ornada por densa floresta, soberana montanha no alto de seus 154m de altura. Generosa montanha, anfitriã da padroeira do Estado, Nossa Senhora da Penha – a conhecida Nossa Senhora das Alegrias – A montanha que traz no seu topo o Convento da Penha, a escolhida montanha que testemunhou o começo do que hoje é : Vila Velha, oficialmente, a filha mais velha do Estado do Espírito Santo.

Hoje, a Romaria dos Homens, já não é exclusiva de homens. Mulheres e crianças se juntam aos homens e seguem em procissão, saindo da Catedral de Vitória, com destino ao Convento da Penha em Vila Velha.

14.5.08

Sim, esta é a vida vista pela vida. Mas de repente esqueço o como captar o que acontece, não sei como captar o que existe, senão vivendo aqui cada coisa que surgir e não importa o que: estou quase livre de meus erros. Deixo o cavalo livre correr fogoso. Eu, que troto nervosa e só a realidade delimita.

Clarice Lispector

10.5.08

TENHO OLHADO PARA O MEU UMBIGO

Foto: Andreia Gavazzoni


Palavras...palavras...palavras...discursos: Caso Isabela, últimos acontecimentos na China, o pai que aprisionou a filha, o acidente de trânsito, as discussões sobre o direito das mulheres. E seguem com suas sentenças. Haja fôlego para tantas palavras. Eu ali, querendo não falar de assunto nenhum, querendo ficar quieta – eu comigo – entre o acorde que foi e o acorde que virá, ouvindo minha própria música, sem me explicar, apenas vivendo a aventura de existir. Diante da exigência de interação, levanto-me, explico que não gosto de conversar quando estou deitada, pois quero preservar as pregas vocais (fato que tem lá seu fundo de verdade nas minhas crendices) e, ignorando os discursos que continuam, volto à minha “concentração”. Inspiro pelo nariz e sopro o ar, bem devagarinho, pela boca; inspiro e sopro, inspiro...sinto o ar tomando conta do seu instante passageiro espaço em mim, e presto atenção no umbigo: ele tem que ficar ali, contraído, firme. Já nem escuto ao comando de contrair o abdômen, umbigo nas costas, inspirar e soltar, simplesmente faço, vou fazendo, entregue ao movimento.

É, tenho olhado para o meu umbigo. Descubro que, longe de ser uma atitude individualista ou egoísta, como me fizeram acreditar, é sim, uma atitude de busca de equilíbrio na criação de meus próprios acordes. Então, olho para o umbigo. Preciso fortalecer minha "caixa de força" para sair desse estado de grávida de mim mesma e fazer o parto - parto normal, sem anestesia, Eu comigo. Nascendo, de novo, atualizo-me e abro possibilidades para que venha uma nova mulher no corpo que agora se aceita inteiro, consciente de seus vários instrumentos, cada um com seu som, diferentes sons e de igual importância que juntos, compõem a orquestra afinada que me constitui pessoa em coração, pernas, braços, pé, olhos, ouvidos, garganta, respiração, pulmões...

Aos discuros, o tempo e o lugar adequados. Volto para o meu umbigo, a respiração rege a orquestra: quanto mais consciência tenho de mim, mais equilíbrio, harmonia e beleza para a melodia tocada por todos os membros que formam o que Sou.

7.5.08

Eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho. As vísceras torturadas pela voluptuosidade me guiam, fúria dos impulsos. Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente para experimentar o primeiro e passageiro estágio primeiro da liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me.

Clarice Lispector