18.11.09

FORTE, BRAVO...SUAVE

Tendo como ideal de vida a simplicidade dos Lírios dos campos, conflita-se com as obrigações impostas. Sonhara em ser leve, sem tantas programações para o amanhã e sem reminiscências do vento que soprava noutros tempos vividos. A briga é dura, cruel, lados antagônicos em um mesmo ser. De vez em quando some, recolhe-se em si mesma assumindo o risco de ser esquecida. E confirma o esquecimento na demora da reconstrução de laços que se quebram na trama no momento da fuga e na saída viável que enxerga para se recompor e não interromper o fluxo. Mas, fugir para onde, fugir de quem ou do quê? Sabe que caminho feito é experiência passada, contudo, alucina-se, desejando mudar-se de si mesma. Sente que já é tarde... a noite escapando pelos dedos tumultua o barulhento silêncio que alimenta a insônia. Aventureira no signo, seu nome é mulher, ANA-cheia de graça-Ana-Jana-Juliana-Mariana-Cristiana-Marciana-Tarciana-Viridiana-Poliana-Jordana-Ana, mulher cheia da graça e da garra de ter feito caminhos. Abrindo suas janelas, percebe-se de novo, inspirando o doce balançar das árvores trazendo leveza ao carregado silêncio, e, com prazer, acolhe o irmão que se aproxima. O irmão que sendo forte e bravo, se faz brisa na madrugada, acalma seus pensamentos e sopra suave, refrescando seu sono e anunciando um novo começo. Já já é dia, mulher. Novo dia.

31.10.09

CÉLULAS DESORDENADAS

Por aqui, o mundo chora. Chora, incessantemente doído, mantendo-me numa ilha de paredes úmidas. Em mim, vejo cheiros mofados invadindo o olhar inquieto de decisões para o futuro. Aprisionada, choro minhas dores em dores imaginadas nos que super popularizam as instâncias de passagem entre o provisório – que nunca acaba – ao definitivo que demora a chegar. Faço-me espelho nesse espaço em que não há espaço. Não há espaço para os amontoados em promessas de ressocialização, não há espaço para o restabelecimento da saúde, não há espaço para o curso, percurso que exige liberdade... não há espaço. Adoecidos, choramos o choro do mundo nas águas represadas em nós de angústias jogadas nesse candeeiro – autoforno de emoções – prestes a implodir ou explodir os diques desse sintoma social candente.

28.10.09

Em mim, há uma criança querendo misturar peraltices com seriedade. Há, em mim, uma criança adormecida, sonhando em incluir nas competições ácidas a satisfação de pular amarelinha.

23.10.09


Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; [...] a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.

John Donne

21.10.09

ANDO COM VONTADE DE CHUVA


Represado, enlouqueço. Vagueio, sem horizonte, desejando o sabor da liberdade no ritmo desprovido de máscaras letárgicas que me condicionam o percurso em margens seguras. Arriscar é preciso, sei. Arriscar, apesar do perigo, a me molhar de emoções que se reverberam em viço na pele. Pulsar sem riscos ofusca o brilho e diminui as expectativas da rede onde sou um elo importante. Quebrando a rigidez, posso deslizar suavemente por todas as células, e me alegrar no contentamento dos pelos eriçados que encantam os momentos no auge que estremece toda a estrutura. Ousado, quero a vida aspirada com prazer. Vida prazenteira, de corpo e de alma, alma e corpo que me abrigam, sendo único, em corpo e alma, pulsando, vibrando... Ando com vontade de chuva.

18.10.09

A FLOR DA FLOR

Adornada por lindas mangueiras e cheiro de alfazema que proporciona o frescor nas tardes ensolaradas, a rocha tem no seu campo de visão, o trajeto de momento ideal à frenética dança dos tijolos. Nas paredes, a marca de mãos talhadas e calejadas. No cerne, a vivência de tantos que nela se fazem criança, jovem, adulto, velho, em inesquecíveis momentos de celebração, da festa do nascimento ao luto da partida. Aos pés do rochedo, uma balzaquiana que já passou por tantas modificações, e continua se (re) organizando interna e externamente, tornando-se bonita e aconchegante. Agora, a outrora menina, percorrendo o seu interior, lembra-se da voz emocionada na sua inauguração, do brilho nos olhos ao sentir a beleza dos vitrais no vão central, o aconchego da celebração à meia luz em meio à "plantação de corações", a música... o consolo no adeus ao pai. Percebe que, em novos tempos, toda clarinha, ela continua fazendo história, contando história, e, o mais importante: Ele, com sua presença incondicional, é a “Flor da Flor”. Flor que se percebe nos passos que por ela passam, na voz que louva, pede e agradece, no olhar de menina e nos olhos que, do alto da pedra, velam o silêncio da noite e, às 07 da manhã, no corpo cansado do labor noturno, comanda uma flexão de joelhos sincronizada com o sinal da cruz, reverenciando o lugar que acolhe gente e pode ser espaço de entendimento, aceitação e convivência com as surpresas cíclicas do viver. Agora, a menina entende que o viver exige que se desconstrua para construir, às vezes do marco zero, um lugar novo para se reencontrar.


...


"Flor da Flor" - expressão bonita que escutei de um amigo. Gosto e intitulo esse texto que complementa os textos momento ideal e a frenética dança dos tijolos


Foto: Kenji Okimura

16.10.09

COMEÇANDO O DIA
Você é o meu despertador - disse o garoto.


- E o meu é a idade - replicou o velho.

- Por que será que os velhos acordam sempre tão cedo?

Será para terem um dia mais comprido?

Ernest Miller Hemingway